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12/02/2020 - 16:45
LiterAltos: A PASSAGEIRA

Eu desço ali – aquela voz oca e fúnebre retiniu nos meus ouvidos como um raio disparado de densa nuvem em noite de tempestade.
 Foto: LiterAltos 

LiterAltos: A PASSAGEIRA de Pedro Paiva

 

A PASSAGEIRA

 

       Entrou no carro e, por um breve momento, senti um longo arrepio perpassar-me o corpo inteiro. Estranhei aquela frieza mórbida, brusca e repentina, porquanto a noite estivesse quente e abafadiça.

       Em silêncio, sentou-se no banco do carona e calada permanecera durante toda a viagem. Dúvida atroz, meu Deus! Era a Doninha Sindá? Podia jurar que sim! Mas agora, olhando de pertinho àquela figura decrépita, velha, enrugada, muda e silenciosamente fria, sentada bem ali do meu lado, no banco do carona, a dúvida tomou-me de sobressalto.

       Eu desço ali – aquela voz oca e fúnebre retiniu nos meus ouvidos como um raio disparado de densa nuvem em noite de tempestade.

      No céu escuro, os trovões ribombavam anunciando o início de um aguaceiro que não tardou muito para desabar, acompanhado por um temporal violento e assustador, obrigando-me a fechar as janelas do corcel que, impetuosa e furiosamente, galopava na estrada prateira cheia de lombadas e de estrias e foi, então, que senti um cheiro acre e nauseabundo de flores que fedem a defunto misturado com a catinga azinhavrada de carniça podre.

      - Eu moro ali – disse-me, apontando com o dedo para um lugar deserto e solitário de onde  pouco se avistava alguma coisa.

       Naquele instante, deu para ver de uma nuvem escura sair um raio, numa violência tão grande, que rasgou o chão, levantando um redemoinho de água, poeira e pó. Nas palmas dos coqueirais, o vento rugia feito lobos-guarás e o grito do rasga-mortalha estrondou que nem estampido de canhão na guerra e o tempo se fechou numa manta embaçada, pintando um cenário de medo e terror.

        No dia seguinte, fui à visita de sétimo dia, levando os familiares de dona Di, uma velha macrobiótica que falecera em Altos, mas que fora sepultada no cemitério do distrito da Prata.

       Chegando ao local, alguns aspectos me pareceram bastante familiares. Lembrei-me da noite passada e, por um momento, como num insight, surgiu bem nítida à minha cabeça a imagem daquela mulher de cabelos baços, sujos, quebradiços e desgrenhados, de olhos fundos, faces ocas e de rosto escaveirado que havia descido ali.

       Arrepiei-me todo quando, de repente, entre as sepulturas, vi encravada na lápide de uma delas, a imagem de uma jovem vigorosa, forte e saudável, mas que, em muito, me lembrava à passageira da noite anterior.

       Um tremor espasmódico tomou conta do meu corpo e um frio de morte, correu-me pela espinha dorsal, quando fui informado, por moradores da região, que a jovem da lápide era a noiva lá das Porteiras Velhas que, em uma das noites de maio durante o novenário de Maria se vestira de noiva, untara o corpo com óleo, ateando, em seguida, fogo ao próprio corpo, tamanho o desgosto por não desposar o noivo amado.

DA OBRA CONTOS E RECONTOS ALTOENSES, DE PEDRO PAIVA

 






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