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09/02/2020 - 09:57
LiterAltos: Pega da rês fujona (Trecho retirado do livro Homini Lupus de Antonio Soares)

O vaqueiro se debruçava, rente ao pescoço do cavalo, segurando o chapéu para proteger a cabeça, que os galhos roçavam chapéu e gibão no intuito somente de causar ranhaduras. A rês, contando vantagem, danada. Apois que quando clareou no afora da mata deu com o Tião, elevado, ele mesmo, em seu cavalo, a bicha brecou, refungou, rasgou a terra, saltou de banda querendo dar baia, mas agora a conversa era era outra, com Tião, exato. Com gosto de gás, ele estugou seu cavalo e agalopou vante pra cima da rês, que se apequenou. Ao invés dele agarrar o rabo da bicha feito os outros, fez foi pular em riba dela, a bruto, agarrando-a pelos chifres, já virando a cabeça dela de banda, e pousando agigantado em cima da rezinha, a cabeça apertada no chão, embaixo do joelho dele, ele só paciente, sem nem resfolegar, sem cansaços, esperando Damão que vinha com o laço pra encabrestar a rês pegada.
 Foto: LiterAltos 

LiterAltos: Pega da rês fujona (Trecho retirado do livro Homini Lupus de Antonio Soares)

 

Pega da rês fujona (Trecho retirado do livro Homini Lupus de Antonio Soares)

 

Um vaqueiro enormemente grande, dos braços peludos, barbudo, veio montado num ruão avermelhado, selado, de chouto, veio vindo num balançado gingado de ombros muito largos. Passou olhando praquela arrumação de redes dependuradas e muitos homens arranchados na casa-de-forno em movimentação. Dão havia saído à varanda, o homem parou próximo e começaram a prosear, ele, de cima do cavalo, olhando muito pros do bando enquanto falava a Dão em poucos movimentos de mãos, quase não movendo a coluna, nem girando o pescoço. Damão apareceu à porta e cumprimentou o homem.

— O Tião disse q’stanoite uma rês fugiu por um buraco na cerca, pros lados dos Alfonso.

— Só uma mesmo? — Só tem rastro duma.

— Pois vamos sair na pega da bicha, seu Tião — Damão apenas virou-se e instantes depois, voltou vestindo um gibão e um chapéu de couro, rumou para o curral dos cavalos. Quando seguiram para a porteira, Delbano, o Mico e Jeta se ofereceram para irem juntos, queriam ver como seria a pega da rês fujona.

(...)

 Como não havia portão por onde passasse os cavalos nos fundos da fazenda, Tião e os outros saíram pelo portão da frente e arrodearam, pegando uma vareda fina para o nascente, chão em terra, ladeada de capins, muito relógio entremeado por fedegoso. O caminho ia ora em clareira, com sambaíbas, velames e mundurus de cupins, se levantando acima da relva, ora em entre mata de mororó, de flor mais graciosa, e muita unha-de-gato, da florzinha cheirosa a remédio, árvore espinhosa mas boa pra estacas; vareda fechada, jeito que permitia só um em montaria por vez. Adiante, veio se esticando muita salsa, com suas flores tirante a violeta, avisando que o riacho corria perto. Tinha dado poucas chuvas ainda, só, as de dezembro, mandadas pra amenizar o mundo que tinha de receber o Menino Jesus no seu Natal, prelúdio de chuvas maiores que porvinham, pois o ano só tinha acabado de começar. Perto do mourão que canteava a cerca do Disparadiso dos Mensquita, um grande angico-branco, desse lado da cerca, com seu tronco alvo e bem fincado no chão, levantava para o céu seus galhos, não era de melhor sombra, porções de folhas espalhadas, mas ornava muito aquele canto. Daquele ponto, fizeram a curva rumando para o norte, deram passos fundos numa estrada de areia limpa e fina, debaixo da sombra de faveiras, pentes-de-macaco e caneleiros, na beira da estrada, porçõezinhas de chanana, vassourinhas-de-botão, preferida por alguns de cabeça-de-velho, boas para se rezar em menino com quebrante, algumas urtigas ainda, queimadeiras, e a malícia, sem-vergonhinha, atrepando-se nas outras plantas, que, se fingindo de acanhada, fechando suas folhinhas se a gente triscasse nelas, espinhaçava a pele. E, depois de um tope pedregoso e coberto de capim e quebra-pedra, foram dar com a beirada do riacho Cipó. Ali havia alguma terrinha friinha, boa pra se deitar e repousar, à sombra de um ingazeiro, mas contrário à corrente, a margem seguia num embarreirado, ficando alta, com muitas marias-moles; dessa outra banda, da esquerda dos que passavam, ia saindo das areias e ganhando o riacho um terreno lajeado, lambido pelas águas. Os cavalos desceram por ali e atravessaram para a outra margem, mas cuidadosos, pisando devagar, testando a fundura e a firmeza do chão pra não se torcer a pata. Atravessados, seguiram até alcançarem os fundos da fazenda, por onde se escapuliu a rês fujona. Apearam e saíram procurando por rastros. Em se tratando de rês fugida, não estava adereçada de chocalho, só pra tornar a procura mais dificultosa.

            Somente três quartos de horas depois foi que foram dar com a rês deitada sossegada, no meio de um descampado, debaixo de um jatobá como se nadinha tivesse acontecido, era uma vaca toda branca, dos cifres pequenos, volteados pra cima, um bem-te-vi passeava no lombo dela, catando carrapatos, parecia até que ela tivesse indo parar ali de propósito, cuidar do pelo. Damão foi logo armando o laço e estugando seu cavalo na direção da garrota, mas ao assobio de Tião, refreou seu cavalo que se acalmasse, causa de não espantar a bicha. Tião arrodeou pela beirada da mata, para dificultar a fuga, deu ordem aos outros que fizessem do mesmo jeitinho, desajuntando-se, de manter boa distância uns dos outros. Damão esperou a armada, daí pendurou o laço e foi-se indo, se achegando, se apertando. Mas, em coisa de cinco braças de aproximação, a rês fugou, apoiando os joelhos dianteiros no chão, e se levantou, fazendo jeito de correr, o tempo todo olhando pros que se aproximavam. Meteu o pé na carreira, Damão estugou o cavalo, em supetões de aproximações, girou o laço no ar e o arremessou, mas a garrota desembestou e abriu pra outra banda. O Delbano e o Mico tinham ido no mesmo cavalo, sem sela, pelo avexame da situação, o lombo ossudo do cavalo só no suavizado de uma esteira. O Mico desceu pro Delbano continuar e ganhar outra marca. No desembesto da rês, ela foi justamente na direção desse Da Silva, atendido por Mico. Ele ainda agitou no ar os braços, no que ela hesitou, diminuiu o passo, mas desmudou de intento, pois dos outros lados vinham vaqueiros montados, e investiu ajustadamente foi na direção de quem estava a pé mesmo, numa carreira cega de pisadas pontiagudas de ferir o chão. Não tendo outra feita, o Mico, muito vivo de ligeiro, malabarzinho, vislumbrou um galho arriba de sua cabeça, se apressou nos saltos, pisando no meio do tronco encurvado de uma aroeira, e foi se agarrar no galho, sobreerguendo seu corpo com as pernas abertas; mal a rês trispassou, com seus chifres pontudos linha abaixo, a galha estalou e o Mico caiu estatelando-se no chão, apesar da queda, escapou fedendo de uma chifrada segura. Mas, sem tempo de ficar escutando o chocalho da vaca tocar, súbito treme-rompe acusou a presença do cavalo de Delbano desenrolando a curva da vareda, o Mico só rolou para a beirada do mato o corpo e o cavalo passou pisando demais perto, rastros profundos. Delbano ainda concorreu com a rês, a perto de agarrar o rabo dela, mas seu cavalo, revés de aumentar, fez foi diminuiu as passadas, a garrota, na vez dela, avantou-se, levando consigo o Delbano, que avoou entre o cavalo e ela, indo-se rolar levantando poeirio, entanto o girame, o rapaz se apulumou nas duas pernas e já foi correndo e montando no cavalo de novo. Acompanhou Damão. A rês entrou no matagal e os cavalos posseguiram, já em previsão de entrada viável no mato; os vaqueiros se empenhando no cintureio mor de se manterem em rima do cavalo e não ficarem enroscados em cipó ou galha. Damão ganhou a dianteira, no por um cotó de distância da rês, entremeiando a mata, se esquivando a toda sorte de galhada à frente, obstante no meio da vareda. O vaqueiro se debruçava, rente ao pescoço do cavalo, segurando o chapéu para proteger a cabeça, que os galhos roçavam chapéu e gibão no intuito somente de causar ranhaduras. A rês, contando vantagem, danada. Apois que quando clareou no afora da mata deu com o Tião, elevado, ele mesmo, em seu cavalo, a bicha brecou, refungou, rasgou a terra, saltou de banda querendo dar baia, mas agora a conversa era era outra, com Tião, exato. Com gosto de gás, ele estugou seu cavalo e agalopou vante pra cima da rês, que se apequenou. Ao invés dele agarrar o rabo da bicha feito os outros, fez foi pular em riba dela, a bruto, agarrando-a pelos chifres, já virando a cabeça dela de banda, e pousando agigantado em cima da rezinha, a cabeça apertada no chão, embaixo do joelho dele, ele só paciente, sem nem resfolegar, sem cansaços, esperando Damão que vinha com o laço pra encabrestar a rês pegada.

 

Antonio Soares

 






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