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60 anos da maior catástrofe de Altos

As demais vítimas foram: Adalberto Lopes Camelo, Anísio Pereira da Silva, Antonio Oséas Pereira, Eliezer Guilherme de Oliveira, Francisco Nery Batista da Silva, Francisco Vieira Gomes(Chico Fumaça), Gladson Coelho de Araújo, Joaquim Canuto de Melo (Prefeito de Piripiri-PI, que estava em seu segundo mandato), João Batista Specht, João Pedro, João Porfírio Saldanha Fontenele, José Carlos Nascimento (04 anos de idade), José Ribamar Dias, Julita Carvalho, Kleber Meireles do Nascimento, Leônidas Furtado Mourão, Luís Soares, Luiz Valamiro (?), Manoel Fernandes Alvarenga, Marcela Meireles, Maria de Sousa Machado, Maria Ilka Campos, Maria Meireles do Nascimento, Maria Nazaré Meireles, Pedro Flor da Silva e Raimundo Nonato Lages.
 Foto: JORNAL O DIA 

IMAGEM DO MAIOR DESASTRE OCORRIDO EM ALTOS

“A tremenda catástrofe de sábado último, na rodovia Teresina-Fortaleza, quase à saída da cidade de Altos, com o balanço cruel de mais de trinta vidas sacrificadas, e cerca de uma dezena de feridos, ecoou dolorosamente entre nós, sensibilizando a cidade inteira.
Jornal O Dia, edição n° 477, de 18.07.1957. Reportagem de Petrus Mauricius

Assim o jornal O Dia, de Teresina, noticia o trágico acidente automobilístico ocorrido há 55 anos atrás, que se eternizou na história altoense como o desastre do Marimbá, alcançando repercussão nacional.

O fatídico acontecimento se deu no dia 13 de julho de 1957, sábado, mais ou menos às quatro horas da tarde, nas imediações da fazenda Buritizinho, distante cerca de 1,5 Km da sede da cidade de Altos, na BR 343, que liga este município à capital Teresina.

Faleceram no local do acidente vinte e sete pessoas, vindo a falecer posteriormente, em consequência dos ferimentos, algumas outras no Hospital Getúlio Vargas, da capital piauiense.

Naquela época, a citada BR era carroçal (empiçarrada) e a imprudência, aliada à poeira, foi a principal causa do acidente. O episódio foi um choque frontal entre dois veículos e que ceifou a vida de 33 pessoas.

Era prefeito de Altos na época o Dr. José Gil Barbosa, que tomou todas as providências necessárias para a remoção dos corpos para o Centro de Saúde de Altos (antigo Posto de Saúde São José), onde hoje está edificado o Fórum Desembargador Odorico Rosa. O corpo do Prefeito de Piripiri foi velado na Prefeitura de Altos. Os demais corpos foram levados, por parentes, para as suas respectivas cidades e os mortos de Altos foram enterrados no Cemitério São José, em nosso município.

Como aconteceu o acidente
“Todos os depoimentos das testemunhas do sinistro concluem em atribuí-lo à imprudência do motorista do caminhão [...], que veio a ser, aliás, uma das primeiras vítimas. Tentava cortar o ônibus-horário de Campo Maior, e, cegado pela poeira, foi atirar-se contra o coletivo ‘Marimbá’, da linha Parnaíba-Teresina, que viajava na ‘mão’ própria, em sentido contrário”, assevera o jornalista Petrus Mauricius, na matéria do jornal O Dia aqui citada, afirmando ainda que foi  produzido “um impacto brutal, que ressoou lugubremente a mais de quatro quilômetros de distância”.

No subtítulo Vários feridos, da mesma reportagem, Petrus informa que “um grande número de feridos lota o Hospital Getúlio Vargas, que, desde sábado passado, tem sido palco da dor e do desespero”.

Segundo informações colhidas de contemporâneos, dentre os quais o senhor José Joaquim Lima (Zé Gago), sobrevivente do desastre, já falecido, o trágico acidente ocorreu assim: o jovem motorista José Cândido Teixeira Viana, dirigindo seu caminhão Ford E-5, com menos de um ano de uso, cabine de aço e rodagem simples, seguia do lugar Caranguejo, zona rural de Altos, para o centro da cidade, onde faria a entrega de uma carga de madeira redonda para a construção de uma casa do senhor Luís, que também vinha na viagem e faleceu no acidente.

O veículo estava cheio de madeira (caibros, travessas, forquilhas e enchimentos) e alguns cofos de carvão. Ao todo, viajavam no caminhão 10 pessoas, sendo oito na carroceria e dois na cabine.

Saindo do lugar Caranguejo, José Cândido entra na antiga rodovia BR 22, atual BR 343, que liga Altos a Teresina. Pouco antes de seu ingresso na estrada, havia passado um ônibus horário(como era chamado na época o transporte) com destino a Campo Maior, deixando atrás de si uma grande nuvem de poeira. José Cândido, então, até mesmo para testar a potência de seu caminhão, inicia uma perseguição ao horário, que não dá espaço para que o veículo ultrapasse.

Chegando à altura da Fazenda Buritizinho, o ônibus horário abre passagem, indo para o acostamento da estreita rodagem. José Cândido, imaginando que vencera seu concorrente, e entendendo que o recuo era para ele ultrapassar, avança, colidindo violentamente com um ônibus da empresa Marimbá, que trafegava em sentido contrário. No engavetamento dos veículos, muitos tiveram morte imediata, alguns sendo transpassados pela madeira que vinha na carga do caminhão.

José Cândido fica preso entre as ferragens gritando alucinadamente por socorro. Depois de algum tempo, após redobrados esforços para separar as máquinas, as mesmas dão uma trégua, mas inesperadamente o cabo de aço se rompe e as ferragens se contraem novamente, ceifando de vez com a vida do infeliz motorista.

O socorro às vítimas 
“O trabalho abnegado de quantos procuraram dar socorro às vítimas foi, sem dúvida, um lenitivo para o trauma que golpeou a nossa sensibilidade”, diz o comovido jornalista na matéria d’O Dia, elencando os nomes de pessoas que prestaram inestimável socorro às vítimas do acidente, seja conduzindo os cadáveres para Altos e Teresina, seja prestando serviços de salvamento e internação na unidade hospitalar, dando “de si tudo quanto lhes permitiam as condições ambientes e a aflição do momento pavoroso”.

Segue seu texto destacando os nomes de Esaú Barreto e José Mendes Loiola, motoristas de caminhões de carga que viajavam pela rodovia; Eugênio Doim Vieira, agente fiscal do imposto de consumo; o comerciante de Teresina Valdemar Martins; o industrial Antonio Carvalho; Newton Cortez, veterinário do Ministério da Agricultura; Anísio Ferreira Lima, Coletor Federal em Altos; Agenor Almeida, Prefeito de Teresina; José Gil Barbosa, Prefeito de Altos; Delegado de Polícia de Altos; e o fazendeiro Mário Raulino, além de inumeráveis pessoas cujos nomes não foi possível registrar.

A reportagem chama a atenção para o valioso trabalho dos comandantes da Guarnição Federal (26ª Cia de Recrutamento e 25º Batalhão de Caçadores) e do Comandante da Força Policial pelas imediatas providências tomadas, além de destacar o elevado espírito profissional do Diretor de Assistência Hospitalar, dos médicos do Pronto Socorro e da equipe de cirurgiões do Hospital Getúlio Vargas pela prontidão com que se aplicaram ao atendimento dos feridos.

As vítimas do acidente 
Com certo esforço, conseguimos listar os nomes de vários falecidos. Além do motorista altoense José Cândido, proprietário do caminhão causador do acidente, faleceu o motorista do ônibus, Joaquim Gomes do Rego, mais conhecido pela alcunha de Quincas Rego (natural de Barras-PI).

As demais vítimas foram: Adalberto Lopes Camelo, Anísio Pereira da Silva, Antonio Oséas Pereira, Eliezer Guilherme de Oliveira, Francisco Nery Batista da Silva, Francisco Vieira Gomes(Chico Fumaça), Gladson Coelho de Araújo, Joaquim Canuto de Melo (Prefeito de Piripiri-PI, que estava em seu segundo mandato), João Batista Specht, João Pedro, João Porfírio Saldanha Fontenele, José Carlos Nascimento (04 anos de idade), José Ribamar Dias, Julita Carvalho, Kleber Meireles do Nascimento, Leônidas Furtado Mourão, Luís Soares, Luiz Valamiro (?), Manoel Fernandes Alvarenga, Marcela Meireles, Maria de Sousa Machado, Maria Ilka Campos, Maria Meireles do Nascimento, Maria Nazaré Meireles, Pedro Flor da Silva e Raimundo Nonato Lages.

Para a complementação da lista, recorremos à reportagem do jornal O Dia citado acima e publicado em 18 de julho, cinco dias após o acidente.

O fim de uma família
A reportagem de Petrus Mauricius informa também que “além da ineditez do desastre, um dos maiores ocorridos em todo o país, houve dentro do mesmo outro acontecimento de proporções trágicas, inéditas, podemos dizer. Uma família quase toda desapareceu, sobrevivendo apenas o chefe”.

Quanto à família que teve seu fim no desventurado choque automobilístico, trata-se da morte de Maria Meireles do Nascimento e de seus três filhos: Kleber Meireles do Nascimento, com menos de sete anos, Marcela Meireles e Maria Nazaré Meireles, de 06 meses de idade. O sobrevivente foi o senhor Bernardo Nascimento, chefe da família, que escapou com vários ferimentos.

Monumento aos falecidos 
No local do desastre foi construído um pequeno monumento onde está aposta uma placa com os seguintes dizeres:

“Homenagem de saudade aos viajantes comerciais tragicamente falecidos no desastre de 13 de julho de 1957. 
João Saldanha Fontenele
Gladson Coelho de Araújo
Eliezer G. de Oliveira
Leônidas Furtado Mourão
João Batista Specht 
Francisco Nery.”

No local, além do monumento já referido, existe um enorme cruzeiro marcado com a quantidade de cruzes referentes ao número de vítimas e foram colocadas algumas cruzes menores. O lugar é sempre visitado pelos devotos das almas e por motoristas, que vão ali acender velas ou colocar flores como pagamento de promessas feitas às almas do desastre.

Os  sobreviventes 
Sobreviveram dois passageiros do caminhão, ambos já falecidos: um jovem, de nome José Joaquim Lima, conhecido como Zé Gago, e outro, cujo nome era Manoel. Manoel, segundo depoimento de Zé Gago, era natural de Altos e ficou todo aleijado do acidente; vivia a pedir esmolas na porta da agência do Banco do Brasil, em Teresina, onde faleceu há algum tempo.

Zé Gago era ajudante de José Cândido nas viagens. Ao subir no caminhão, resolveu sentar-se na parte traseira da carroceria. Conforme depoimento prestado ao autor deste trabalho em 06 de outubro de 2003, ele declarou o seguinte: “Só vi alguma coisa do Caranguejo até o Buritizinho. Na hora da batida, fui lançado fora, caindo no mato desacordado. Meu pé direito virou para trás e fiquei todo cortado. Quando me acharam, fui levado para o Hospital Getúlio Vargas, em Teresina, onde fiquei 22 dias internado, de 13 de julho até 04 de agosto de 1957. Eu tinha na época 23 anos e 11 meses.

Afirma ainda que muitas pessoas acorriam ao HGV para visitar as vítimas, oferecendo conforto espiritual e ajuda material. Na entrevista a mim concedida, disse mais que foi muito bem servido de doações. “Era pra eu ser rico, pois recebi muita doação em dinheiro; uns davam 05 mil réis, outros davam 10 mil réis, outros vinte... O dinheiro que restou deu pra comprar meio saco de açúcar, que custava 10 mil réis. O resto foi roubado não sei por quem”.

Na época do desastre, Zé Gago contava pouco menos de 24 anos, era solteiro e morava no bairro Bacurizeiro, em Altos, onde nasceu no dia 16 de agosto de 1933. Eram seus pais Joaquim Ferreira Lima e Maria Ferreira Lima. Foi criado por seu padrinho, o fazendeiro e proprietário rural José Cleto de Sousa, residindo na casa do mesmo, que era proprietário da Fazenda Formosa, em Altos.

Zé Gago estudou apenas as séries iniciais do antigo primário, aprendendo a ler e assinar o nome. Depois do acidente que sofreu, em 1957, tirou carteira de motorista, no ano de 1959, aprendendo a dirigir carreta, ônibus, caminhão e outros veículos.

Trabalhou na profissão de motorista em vários locais: na oficina do senhor Bacana; na construtora Mazerine Cruz, de Teresina, por 12 anos; foi motorista de ônibus na empresa José Chaves, de José de Freitas-PI por 10 anos, fazendo a linha de José de Freitas a Teresina-PI e São Benedito-CE; trabalhou ainda no restaurante Beliscão, da capital piauiense, e na empresa Jatel, de Altos, na cidade São Raimundo Nonato-PI, dirigindo caçamba.

O desastre como tema de artigo científico
Pela maneira trágica como as vítimas faleceram, muitos fiéis têm devoção pelas “almas do desastre”, a quem atribuem a graça de muitos milagres alcançados.

Abordando a temática e a religiosidade popular que se formou entre os fiéis católicos quanto ao culto às “almas milagrosas” vitimadas naquele acidente, as estudantes Fernanda Gomes de Lira e Samara Batista Viana Costa, graduandas do curso de Licenciatura Plena em História pela UESPI, campus Heróis do Jenipapo, de Campo Maior, trabalhando os aspectos gênero, memória e cidade, produziram o artigo “Da tragédia às almas milagrosas: a sacralização do ‘santuário das almas’ do desastre do Marimbá, em Altos-PI”, já apresentado em diversos eventos de produção científica.

O foco do trabalho é a análise das práticas de sacralização que permeiam os milagres atribuídos às almas do desastre do Marimbá, buscando verificar como se constituiu esse processo de devoção e identificar o significado dessa representação de fé e devoção no imaginário popular local, percebendo o “santuário das almas”, como um local reprodutor de memória, que não compreende somente o individual, mas que compreende também a coletividade social.

Para a confecção do artigo, foram feitas análises das memórias herdadas e vividas de pessoas contemporâneas à época do acidente e pessoas que “ouviram falar” sobre esse acontecimento para que se conheça o início da devoção ali desenvolvida. A prática de devoção se difunde numa rede de crenças propagadas pelos fiéis, que por meio da memória vem sendo transmitida desde a morte trágica daquelas pessoas até o momento presente.

Textualmente, o resumo expandido do referido trabalho acadêmico é o seguinte: 
“Em memória destas pessoas que tiveram suas vidas ceifadas tragicamente, foi construído um santuário. Partindo desse pressuposto, qual o significado da devoção para com as almas do acidente? Como são entendidas e difundidas as práticas de fé acerca dos milagres? Para a viabilização da pesquisa e possíveis respostas para tais indagações será realizado uma descrição do santuário, e os símbolos que representam. Alinhado a isso, para um estudo mais acurado se fará uso da revisão bibliográfica de historiadores e pesquisadores como um aporte significativo para o desenvolvimento da pesquisa que será trabalhado com a memória, para se perceber o “santuário do desastre” como um lugar produtor de memórias.

Em memória às “almas do desastre”, muitos devotos rezam, acendem velas, depositam os ex-votos e fazem pedidos buscando um elo intermediário entre Deus e os fiéis. Essas práticas de devoção estão inseridas na religiosidade popular, que estão relacionadas com os discursos atinentes aos milagres, que se difundem por meio da oralidade, bem como por memórias herdadas e vividas. Essa devoção propagada pelos fiéis se insere num espaço cultural e social nos “modos de sentir da sociedade altoense. Os devotos permitem que o “santuário do desastre” transforme-se em um local de memória que vai se configurando no imaginário da sociedade altoense.

Esses locais podem permanecer na memória dos indivíduos por muito tempo. Há locais que fazem parte da memória, lugares de comemoração, como os monumentos aos mortos podem se constituir como memórias vividas por pessoas que tenham vivido naquele período, ou memórias herdadas que são repassadas por intermédio dos relatos orais”.

Fonte e texto: Carlos Dias, professor e pesquisador




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